Evitando a ansiedade, a cobrança e o medo

“Teremos projetos que não podemos imaginar hoje”

 

A coach, Isabelle Dossa, elenca três fases que devemos passar para sairmos desta crise mais saudáveis e resilientes.

Mudança, adaptação, reinvenção sempre fizeram parte de Isabelle Dossa. A médica nascida na França escolheu o Brasil como residência quando tinha 29 anos. Depois de uma longa atuação em nutrição humana, estudou Medicina Integrativa e nos últimos dois anos, acrescentou a sua carreira o formação de coach de saúde. Agora, está encarando usar a tecnologia para acompanhar e realizar consultas online.

E mais do que nunca, estamos precisando de uma orientação profissional neste momento em que tudo mudou nas nossas vidas em pouco tempo, o nosso presente e as perspectivas para o futuro. A pandemia mundial do coronavírus deu uma boa bagunçada na nossa rotina e chacoalhou todas as nossas certezas. Há um aprendizado em viver confinados, criar novos hábitos, mudar a forma de consumir, de se alimentar, de se exercitar, fazer escolhas, adaptar agendas, criar espaço para trabalho, lazer, família, organizar a casa, o tempo, achar uma nova forma de se relacionar com amigos e familiares. 

“É complexo dar receita pronta pois cada pessoa vive esta experiência a partir da sua situação particular familiar, sócio-profissional e do seu estado de saúde e as situações são muito diversas: família com crianças, pessoa que vive sozinha, casais que começaram uma separação, pessoas doentes… Para uns confinamento rima com solidão e para outros com promiscuidade e ausência de privacidade”, comenta a doutora. “Temos ainda de acrescentar mais dois fatores: a avalanche de notícias e as dúvidas sobre a situação econômica e financeira.”

Para dar uma “organizada” neste cenário meio caótico, nosso cérebro será nossa maior aliado e vai se adequar  mas precisamos respeitar o timing e os estágios necessários a essa adaptação antes de se lançar em ações inadequadas e ansiógenas . Assim, tiramos o peso de ter que fazer tudo ao mesmo tempo agora e evitamos gerar mais ainda ansiedade, cobrança e medo.

A primeira etapa que temos que  abordar é nossa segurança estrutural, física  e mental. Na parte prática, a primeira tarefa é organizar a casa. Faça uma compra sem exageros de itens essenciais para sua despensa, limpe os cômodos e faça um plano familiar coordenado de como cada espaço vai ser usado e como agir em situações críticas e emergenciais.  

Independentemente da aparência da sua unidade familiar, será necessário criar uma rede de apoio próximo. Elabore uma estratégia de conexão social com um pequeno grupo de familiares, amigos e/ou vizinhos, mantendo o distanciamento físico de acordo com as diretrizes de saúde pública. Identifique os vulneráveis e verifique se eles estão incluídos e protegidos. Enfim, construa um sistema social sustentável e seguro que possa ser acionado em qualquer momento.

Em seguida, dê uma atenção ao seu corpo. Mas, lembre-se, você não se tornará um atleta olímpico nas próximas duas semanas, por isso coloque expectativas razoáveis sem pensar que vai participar dos Jogos Olímpicos assim que o isolamento social acabar, mesmo porque, foram transferidos para 2021.

É hora de respeitar da mente. Nada de muitas cobranças. De uma vez por todas, o mote é pegar leve.  “Seus primeiros dias e semanas em uma crise são cruciais e você deve dar amplo espaço para permitir um ajuste mental. É perfeitamente normal e apropriado sentir-se mal e perdido durante essa transição inicial”, avalia a coach. “Considere uma coisa boa que você não esteja em negação e que esteja se permitindo trabalhar com a ansiedade. Nenhuma pessoa sã se sente bem durante um desastre global; portanto, seja grato pelo desconforto de sua sanidade.”

Feito isso, já dá para entrar na fase 2: iniciar uma mudança mental. Depois de passar pelo tsunami inicial, o cérebro pode e será redefinido para novas condições de crise e sua capacidade de realizar um trabalho de nível superior será retomada. É hora de aproveitar desta condição única para transformações internas reais. “Precisaremos de humildade e paciência para abandonar a performance e abraçar o autêntico”, afirma. “Deixe mudar como você pensa e como vê o mundo. As tragédias nos dão a coragem para idéias ousadas”.

Se jogue nelas e entre de cabeça no nível 3 que é abraçar uma nova rotina. No fim deste arco-íris “o seu cérebro maravilhoso, criativo e resiliente estará esperando por você”, promete a médica.

Com os alicerces criados, é hora de planejar como será seu dia. Use as famosas técnicas de produtividade, definindo prazos, prioridades, tipos de trabalho. Coloque em ordem do que é mais fácil primeiro e depois, encare o trabalho pesado. Reserve dentro deste planejamento tempo para dormir, comer de maneira saudável, praticar alguma atividade física, relaxar, meditar. 

Com  o passar dos dias, tudo vai se encaixando e ficando mais natural. Com a engrenagem andando, haverá espaço para fazer ajustes ou simplesmente cancelar uma atividade. Pode trocar a yoga pelo boxe, ou a boxe pela Yoga, e perceber o que faz sentido, sem sofrimento. O importante é ter fé no processo e ir abraçando que está dando certo.

Para Isabelle, “é vital entendermos que isso é uma maratona. Se você correr no começo, vai passar mal até o final do mês. Prepare-se emocionalmente para que essa crise continue por muito tempo, seguida por uma lenta recuperação. Se terminar mais cedo, ficará agradavelmente surpreendido. “ 

No pote de ouro, quando dominarmos esse vírus, com certeza, voltarão os abraços; as fronteiras serão abertas; a economia vai se recuperar. “Do outro lado dessa jornada de aceitação estão a esperança e a resiliência.  Seremos criativos e receptivos e encontraremos luz e saúde. Vamos aprender novas receitas e fazer amigos. Teremos projetos que não podemos imaginar hoje e iremos inspirar pessoas que ainda não conhecemos. E nós vamos nos ajudar. Não importa o que aconteça a seguir”, finaliza.

O futuro parece promissor, não é?

Regiane Bochichi

Profissional multidisciplinar, especialista em transmídia, com sólida experiência em ações de marketing e conteúdo jornalístico, adquirida em mais de 30 anos de atuação em empresas nacionais e multinacionais do segmento de comunicação tanto em veículos como em agências.
Regiane Bochichi