Superidosos tem memória de elefante e cérebro desenvolvido

Estudo brasileiro revela que grupo de pessoas com mais de 80 anos com boa memória, os chamados “superidosos” apresenta imagens cerebrais diferentes dos “normais” que podem indicar caminhos para melhorar cognição.

O recém-eleito presidente dos Estados Unidos completou 78 anos no dia 25 de Outubro. A sua idade “avançada” foi um dos pontos levantados durante o período eleitoral questionando a sua capacidade de gestão frente a maior potência do mundo. João Carlos Martins, o pianista de 80 anos, voltou recentemente a tocar com os 10 dedos após 21 anos, graças ao uso de um par de luvas biônicas. O milionário Abílio Diniz está a frente da conselho de administração Conselho de Administração da Península Participações e empreende com a Plenae, uma plataforma de conteúdo sobre qualidade de vida e longevidade.

Esses três homens são alguns exemplos do que a ciência está chamando de superidosos. O termo foi cunhado por um grupo da universidade de Northwestern (Chicago, EUA), liderado pelo professor M.-Marcel Mesulam, que definiu como “superagers”, pessoas com 80 e 90 anos cujo desempenho em testes de memória está igual ou mesmo acima de indivíduos 20 a 30 anos mais jovem. Afinal, o esquecimento é uma das características mais marcantes do envelhecimento.

E se é o cérebro que avisa que estamos perdendo a memória, é nele que pode estar a resposta do que fazer para barrar esse sintoma. Aqui no Brasil, desde 2017, esse ponto tem recebido a atenção do dr. Adalberto Studart Neto, neurologista do Hospital das Clínicas. Em seu estudo de doutorado sob orientação do Prof. Dr. Ricardo Nitrini, professor titular do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), ele foi atrás biomarcadores da doença de Alzheimer comparando imagens cerebrais de idosos normais e com desempenho cognitivo excepcional.

Foram avaliados 66 idosos com 80 anos ou mais, sendo identificados 15 superidosos e o restante chamado de grupo de controle, composto por idosos da mesma faixa etária, mas com avaliação cognitiva dentro do esperado para a idade. O levantamento explorou as imagens neurológicas (feitas por ressonância magnética de alta resolução e PET scan) para entender os mecanismos biológicos relacionados ao envelhecimento com preservação da memória e da cognição, comprovando que os superagers tem uma região do cérebro denominada cíngulo anterior mais desenvolvida.

A grosso modo, quando falamos que um indivíduo tem memória de elefante, lembrando de muitos fatos e datas, recorremos a biologia que mostra que esses animais possuem o hipocampo e os lóbulos temporais bem desenvolvidos, ou seja, um cérebro diferente dos outros mamíferos. Assim, acontece com o grupo estudado.

superidosos

A comparação dos exames abriu outras frentes para pesquisas para responder perguntas como: seriam os superidosos indivíduos que previamente já eram dotados de uma memória excepcional quando jovens? Ou eles teriam apenas uma maior resiliência aos efeitos deletérios do envelhecimento cerebral e de patologias neurodegenerativas? Há mecanismos genéticos e fatores ambientais associados a esse envelhecimento bem-sucedido?

“O entendimento de idosos com uma memória excepcional é, portanto, um desafio científico de interesse significativo porque pode contribuir para desenvolver estratégias terapêuticas com o objetivo de melhorar a cognição ou desacelerar a neurodegeneração”, comenta o autor da tese. “Um outro ponto que chama a atenção é que muitos dos superidosos da amostra ainda estavam exercendo suas atividades profissionais ou novas ocupações. Dentro do nosso grupo de superidosos, tínhamos um professor universitário, uma psicóloga, uma atriz amadora de teatro, empresário, advogado”.

Os superidosos não tem sido alvos de muitas investigações ao redor do mundo, daí a importância do ensaio brasileiro. De maneira geral, o que já se pode concluir é que eles têm menos falhas de memória. Alguns conseguem, por exemplo, se lembrar de detalhes da festa do seu sexto aniversário. Além disso, mantêm a capacidade de resolver melhor os problemas, maior flexibilidade para realizar tarefas, trabalhar, estudar e maior autocontrole.

Em sua participação no MaturiFest 2020, o empresário Abílio Diniz lembrou que não é apenas a genética que conta. “Quando você chega numa idade, carrega o que fez a vida toda. Não dá para imaginar que você levou a vida de um jeito e vai chegar no fim de outro. Minha mãe morreu com 99 anos, meu pai com 94. Mas está provado que a genética responde só por 20% da sua condição. O resto é com a gente, o contexto, o ambiente.”

No seu caso, o envelhecimento é um reflexo de como foi sua vida regida por refeições equilibradas, exercício constante, stress controlado e  autoconhecimento. “Há diversos estudos epidemiológicos demonstrando que a prática de atividade física regular (em especial exercícios aeróbicos), alimentação saudável (rica em fibras, carnes brancas, frutas, pobre em massas, gorduras e carnes vermelhas) e atividade intelectual  são fatores protetores contra o surgimento de uma demência de qualquer natureza, em especial as causas pela doença de Alzheimer e por doenças cerebrovasculares”, acrescenta dr. Stuart Neto.

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Abilio Diniz foi um dos palestrantes do MaturiFest 2020 Online e é superager, sendo exemplo de longevidade para muitos maturis.

O estudo clínico mais importante sobre a perda de memória relacionada à idade é o FINGER (Finnish Geriatric Intervention Study to Prevent Cognitive Impairment and Disability), publicado em 2015, na Finlândia. Um grupo de 1260 idosos normais (sem demência) foram acompanhados por dois anos, divididos em dois: um em que os idosos eram apenas orientados quantos a mudanças de estilo de vida e outro em que os voluntários foram inseridos em programas para efetivamente mudar a forma de viver. Ao final da apuração, a segunda turma apresentou menor incidência de declínio cognitivo e melhor desempenhos nos testes neuropsicológicos.

Ter um estilo de vida apropriado, buscar um propósito, acreditar na ciência e uma dose de fé, faz parte desta categoria de super-heróis.

Em entrevista à BBC News Brasil, o maestro João Carlos Martins que reencontrou com seu piano, disse: “quantas manhãs eu acordo e falo: ‘sei lá se vai ser possível’. Acordo como um velhinho de 230 e, cinco minutos depois, sou um garoto de 12 anos” e relembra o ensinamento do seu pai, José da Silva Martins, representante comercial: “O impossível só existe no dicionário dos tolos”.

Assista o vídeo que mostra a trajetória de vida desse superidoso:

 

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Regiane Bochichi

Profissional multidisciplinar, especialista em transmídia, com sólida experiência em ações de marketing e conteúdo jornalístico, adquirida em mais de 30 anos de atuação em empresas nacionais e multinacionais do segmento de comunicação tanto em veículos como em agências.
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