Lidando com a situação atual: Esse desconforto que você sente é luto

Num encontro virtual da equipe responsável pela edição da Harvard Business Review, os participantes conversavam sobre como se sentiam e como poderiam ajudar os leitores da revista. Uma das jornalistas disse que se sentia profundamente triste. Cabeças assentiram em todas as janelas. Um dos presentes era David Kessler. Pedimos a ele ideias sobre como enfrentar esta situação. 

David Kessler é um dos maiores especialistas em luto no mundo. Ele escreveu juntamente com Elisabeth Kübler-Ross On Grief and Grieving: Finding the Meaning of Grief through the Five Stages of Loss (em tradução livre, Sobre o Luto e em Luto: Encontrando o Significado no Luto através das Cinco Fases). Seu novo livro acrescenta outra fase ao processo, Finding Meaning: The Sixth Stage of Grief (em tradução livre, Encontrando o Significado: a sexta fase do luto). Ele é, também,  o fundador do www.grief.com.

Ele nos falou da importância de reconhecer a dor do luto, como lidar e como encontrar significado nela. 

HBR: As pessoas estão sentindo muitas coisas neste momento. É certo chamar este sentimento de luto?

Kessler: Sim, o sentimento é de uma série de dores diferentes. Sentimos que o mundo mudou. Sabemos que esta fase é temporária e percebemos que as coisas serão diferentes. Assim como ir para o aeroporto é sempre diferente de antes de 11 de setembro. A perda da normalidade; o medo do pedágio econômico; a perda de conexões. Isso está nos atingindo e estamos sofrendo coletivamente. Não estamos acostumados ao sofrimento coletivo.

Você disse que estamos sentindo mais do que tristeza?

Sim, também estamos sentindo o luto antecipado que é o sentimento de incerteza sobre o que o futuro nos reserva e quando nos concentramos na morte. Sentimos isso quando alguém recebe um diagnóstico grave ou quando pensamos na possibilidade de perdermos nossos pais, por exemplo. O luto antecipado é, também, a imaginação de um futuro catastrófico. Está chegando uma tempestade. Há algo ruim por aí. Com a presença de um vírus o sentimento é igual. Nossa mente primitiva sabe que algo ruim está acontecendo. Isso quebra nossa sensação de segurança. Sentimos a perda da segurança. Eu não acho que perdemos coletivamente nosso senso de segurança, o perdemos individualmente ou em grupos menores. 

O que as pessoas podem fazer para lidar com esse sofrimento?

Compreender as fases do luto é um bom começo. É preciso lembrar que as fases não são lineares e podem ocorrer em diversas ordens. Não é um mapa, mas uma bússola para um mundo desconhecido. Há a negação: esse vírus não me afeta. Há a raiva: você está me fazendo ficar em casa e impedindo minhas atividades. Há a barganha: Ok, se eu me distanciar por duas semanas tudo ficará melhor, certo? Há a tristeza: não sei quanto tempo isso vai durar. E, finalmente, há a aceitação: está acontecendo e tenho que descobrir o que fazer com isto.

A aceitação é onde está o poder. Encontramos controle na aceitação. Posso lavar minhas mãos. Posso manter distância segura das pessoas. Posso aprender a trabalhar virtualmente.

Quando estamos de luto, há aquela dor física. Existem técnicas para tornar esta dor menos intensa?

Vamos voltar ao luto antecipado. Luto antecipado é doentio, é ansiedade. Nossa mente cria imagens. Meus pais estão ficando doentes. Vemos os piores cenários. É nossa mente sendo protetora. A solução não é ignorar essas imagens ou tentar fazê-las desaparecer. O objetivo é encontrar equilíbrio nas coisas que está pensando. Se sentir que a pior imagem toma forma, pense na melhor imagem. Todos ficamos um pouco doentes e o mundo continua. Nem todo mundo que eu amo morrerá. Nenhum dos cenários deve ser ignorado, mas, também, nenhum deve dominar.

O luto antecipado é a mente no futuro imaginando o pior. Para se acalmar, retorne ao presente. Este será um conselho familiar para quem meditou ou praticou a atenção plena. Perceba que, no momento presente, nada do que antecipou aconteceu. Neste momento, você está bem. Tem comida. Não está doente. Use seus sentidos e pense sobre suas sensações. A mesa está dura. O cobertor é macio. Percebo o ar entrando no meu nariz. Tudo isso realmente funciona para atenuar um pouco essa dor. Você também pode pensar em deixar de lado o que não pode controlar. O que as pessoas estão fazendo está fora de seu controle. O que está em seu controle é ficar a um metro e meio delas e lavar as mãos. Concentre-se nisso.

Finalmente, é um bom momento para exercitar a compaixão. As pessoas terão diferentes níveis de medo e tristeza. Outro dia, um colega de trabalho ficou irritado comigo, pensei: essa pessoa não é assim; no entanto, é assim que ela está lidando com esta situação. Estou vendo o medo e a ansiedade nela. Sejamos pacientes. 

O que você pode dizer a alguém que leu tudo isso e ainda está se sentindo em profunda tristeza?

Continue tentando. Há algo de poderoso em ter este sentimento e comunica-lo. Isso nos ajuda a perceber o que está em nós. Ouvi de algumas pessoas: “Estou dizendo aos meus colegas de trabalho que estou tendo dificuldades” ou “Chorei ontem à noite”. Quando comunica, você sente que suas emoções se movem através de você. Elas precisam de movimento. É importante reconhecermos o que passamos. É importante poder sentir-se triste. Deixe-se sentir tristeza, medo ou raiva. Lutar contra isso não ajuda porque seu corpo está produzindo a sensação. Ao permitirmos perceber nossos sentimentos nos habilitaremos a ser protagonistas e não vítimas.

 

O artigo de Scott Berinato foi originalmente publicado na Harvard Business Review em https://hbr.org/2020/03/that-discomfort-youre-feeling-is-grief

Walter Alves

Consultor social sobre diversidade e inclusão de pessoas 50+ no trabalho. Educador, facilitador em workshops e consultor em programas de diversidade e inclusão. Dedica-se, desde 2012, ao tema longevidade e preconceito etário. Parceiro da Maturi, onde escreve semanalmente para o blog. Produziu e apresentou o programa de entrevistas Trabalho no Futuro.
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