Boa velhice para quem? Reflexões sobre desigualdades da senescência

Sabedoria, orgulho das realizações e sensação de dever cumprido são significados de pertencimento apontados em pesquisas por idosos de extratos mais altos de nossa pirâmide social. Por outro lado, a perda da saúde, dificuldade de encontrar oportunidades de trabalho e a falta de respeito são sentimentos democráticos à nossa velhice, bem como a preocupação com finanças e aparência. Isso revela aspectos melancólicos e talvez menos debatidos sobre o fenômeno da longevidade. Afinal, envelhecer bem é para todos?

De acordo com o IBGE, no Brasil, os mais ricos ganham 21,4 vezes do que recebem os mais pobres, abismo questionado por estudos particulares que consideram a desigualdade ainda maior, já que nem sempre a renda dos mais ricos é mensurável, considerando que nem todos os ganhos obtidos como bônus, renda de aluguel e dividendos são declarados.

Isso posto, como comparar a velhice de uma mulher situada confortavelmente no topo da pirâmide, aos 60 anos de idade, com uma rotina de cuidados que vão de tratamentos dermatológicos e estéticos de alto nível a exercícios monitorados por personal trainer, passando por uma dieta cuidadosamente calibrada por nutricionista ou nutrólogo e acompanhamento de endocrinologista, com uma mulher pobre da mesma idade, que, com sorte, acumula o seu trabalho doméstico com alguma profissão operacional que lhe traz rendimentos para ajudar na manutenção da casa?

Claro que a generalização é perigosa. Existem casos e cases. Mas qual é a “boa velhice” que vemos estampada nas matérias de revistas e jornais por aí? De que velhice estamos falando?

Cabelos grisalhos bem tratados com shampoos específicos para evitar o amarelamento dos fios e cortes modernos realizados por bons cabelereiros em salões de beleza; mãos e pés bonitos, com unhas caprichosamente “manicuradas” semanalmente; rostos bem nutridos e hidratados, com pouquíssimas rugas, fruto de tratamentos estéticos cujos preços variam de acordo com a disponibilidade da bolsa da interessada em retardar as marcas do tempo.

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Crédito da imagem: Unsplash

No tocante à saúde o cenário não parece melhor. Ouvimos sempre que ganhamos longevidade, que a opção por uma boa saúde está ao alcance de todos. Será? Se a solução fosse tão simples quanto trocar uma coxinha por um pé de alface, isso talvez fizesse sentido. Mas sabemos que não é. Qual é o percentual de brasileiros acima de 50 anos que consegue arcar com os altos custos das mensalidades cobradas pelos planos de saúde particulares? É possível envelhecer bem às custas do Sistema Único de Saúde (SUS)?

Sob a ótica financeira, sabemos que é importante ter uma poupança para a velhice e, de preferência, um emprego formal que propicie uma renda regular. Novamente situações pouco rotineiras para a parcela menos privilegiada dos idosos brasileiros, que possivelmente nunca se deram conta das dificuldades maiores que enfrentariam por conta do preconceito de idade latente em nossa sociedade.

Estudos internacionais intitulam “lookism” a postura segregadora com base na aparência das pessoas. Pesquisas mostram que profissionais ou políticos considerados bonitos têm mais chances de sucesso na carreira.

Esse tipo de discriminação, com base na aparência, pode incluir vieses contra obesos, tatuados ou qualquer pessoa que esteja fora dos critérios estéticos dominantes, e a juventude é padrão ideal de beleza predominante em nossa sociedade. Se para a nossa privilegiada idosa descrita anteriormente, fugir deste preconceito já é um desafio, para o idoso desprovido de recursos, uma quimera.

A falta de respeito, o mais democrático e triste sentimento timbrado pela velhice, vem como uma onda, num crescente com a idade cronológica, quando o idoso parece paulatinamente se tornar invisível: suas ideias já não interessam mais, suas vontades são ignoradas e seus desejos ridicularizados. A infantilização do idoso ultrapassa barreiras sociais e traz danos irreversíveis à autoestima, travestida de carinho, trazendo depressão e declínio cognitivo.

Provocar a reflexão sobre temas que nem sempre são agradáveis pode ser um importante passo para uma transformação social. Se queremos envelhecer bem, temos que pensar numa velhice mais ampla, que abrace a todos. Além disso, precisamos mudar o mindset e entrarmos todos na batalha contra o etarismo.

Fran Winandy para o Blog da Maturi

Fevereiro/2021

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Fran Winandy

Parceira da Maturi. Psicóloga com MBA em RH e Mestrado em Administração de Empresas é pesquisadora do tema “Etarismo”. Atua como consultora na área de Transição de Carreira e Diversidade Etária. Sócia da Acalântis Services, é também responsável pelo Blog Etarismo (www.etarismo.com.br)
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