Por que me sinto mal com os diferentes?

“Ouça-me bem, amor

Preste atenção, o mundo é um moinho

Vai triturar teus sonhos, tão mesquinhos

Vai reduzir as ilusões a pó”

A beleza destes versos de Angenor de Oliveira (1908-1980), o Cartola, só concorre com sua exata compreensão sobre a dinâmica do mundo. A maioria de nossos sonhos são triturados pelas mós do tempo resumindo nossos devaneios a poeira.

Não enfrentar nossas desilusões é não se adaptar às mudanças que ocorrem ao nosso lado, tão próximas que podemos alcançá-las com as mãos e sentir os seus cheiros. Ninguém quer se desiludir, nem com o mundo (sociedade) nem com o outro, mas, como sabemos, nem o outro – com raras exceções – e nem o mundo estão preocupados em não nos desiludir.

Às vezes nos exultamos com sonhos realizados e em outras nos frustramos com as desilusões. Um modo de comemorar ou de denunciar nossa raiva é opinar publicamente. E algumas pessoas expõem sem filtros o que pensam. Antes da internet, nossas reações eram conhecidas por um círculo íntimo e pequeno; agora, com as redes sociais pulsando 24h não temos a mínima ideia de quem nos lê ou nos ouve, o que nos leva à surpresas com as respostas dadas ao que postamos.

É perceptível que alguns sintam-se muito à vontade para expor seus pensamentos sem, no entanto, estarem preparados para vê-los contrapostos. Nesta visão egoica não cabem discordâncias ao ponto de vista defendido com grande ardor, em alguns momentos só ultrapassado pela violência verbal.

Recentemente, pude observar tudo isto a partir da postagem, no Blog Maturi, de um artigo sobre o envelhecimento das pessoas pertencentes à comunidade LGBT+, onde discuto que além de enfrentar as dificuldades naturais do envelhecimento, os LGBT, também, enfrentam preconceito, discriminação e violência na sociedade pela orientação sexual ou pela mudança de gênero. Concluo que se desejamos construir uma sociedade que reconheça as diferenças e respeite os indivíduos, o fim da discriminação aos LGBT no trabalho e nos espaços públicos é imperativo.

diversidade sexual

Inúmeros comentários a favor e contra. Em alguns momentos, ótimos debates, respeitosos e com argumentos compreensíveis. A pluralidade de conceitos como sexualidade, poder, diferença, preconceito, discriminação, amor romântico, respeito, religiosidade, educação e outros menos aparentes, que acompanham o tema só não é maior que as visões apaixonadas que acompanham cada um.

Comentaristas – homens e mulheres – se incomodam de tal modo em ver trocas de afeto entre homossexuais que lhes é impossível não se deixar arrebatar pelo preconceito mais cristalino. Neste caso, preconceito é aversão a uma ideia, a um comportamento, a uma imagem e quem faz parte dela. É a consideração que as pessoas que se comportam deste modo, em primeiro lugar, não poderiam fazê-lo; em segundo, deveriam ser proibidas de fazê-lo; e, em terceiro, se o fizer deveriam ser punidas.

Não passa pela cabeça de quem condena um beijo ou uma carícia gay ou lésbica que o comportamento observado é visto diferentemente por diferentes observadores e observadoras. Alguns e algumas se incomodam, outros e outras não estão nem aí e outras e outros aplaudem. No fim e ao cabo, nenhum dos grupos têm a ver com os dois ou as duas que se beijaram ou se acariciaram.

Algumas mudanças sociais – que ocorrem ao nosso lado -, precisam ser percebidas e o papel do corpo é uma destas inegáveis transformações. O corpo é algo que vai muito além da natureza, corpo é cultura e, portanto, valor. Tanto que é visto de forma diferente em diferentes áreas de nosso planeta. E os LGBT, em busca de identidade e de libertação da opressão cotidiana, enfrentam os valores majoritários violando normas culturais e dispondo de seus corpos conforme sua decisão e desejo.

diversidade sexual

De modo algum quero que concordem comigo e com os milhões – ou talvez bilhões – de indivíduos que pensamos do mesmo modo, mas acho que o exercício de ampliar o olhar e ser mais flexível nas opiniões faria um bem danado a si e a toda humanidade.

Uma outra forma de lidar com um beijo gay ou lésbico dado por duas outras pessoas é se perguntar: por que esta cena me incomoda? Por que isto incomoda a mim e a outros não? Qual a origem deste meu desconforto? O que aconteceu em minha vida para que eu me sentisse e pensasse deste modo?

Às vezes me pergunto se estas pessoas – que são contrárias, ou pelo menos têm grande dificuldade, com a convivência com as diferenças e os diferentes -, se elas têm consciência de como erguem barreiras dificultando ou impossibilitando a vida do outro. Que ao não olharem para as tristezas, as angústias, as dificuldades e as desigualdades sociais e econômicas dos diferentes, e especificamente da comunidade LGBT, de como está sendo cruel com o outro?

Sem qualquer pretensão ou autoritarismo, acredito que grande parte não tenha esta consciência, mas o preconceito inconsciente, também, é danoso na mesma medida.

Ao manter a lógica das desigualdades e da permanente discriminação, a sociedade mantém o sofrimento pessoal sob uma espécie de sadismo social por inaceitação de uma característica que deveria ser de foro exclusivamente íntimo.

Daí a necessidade e importância em darmos passos no sentido de reconhecer que o mundo é, de fato, um moinho e tem mudado a uma grande velocidade e que nossos sonhos não podem e nem devem sobrepor aos de uma comunidade que garanta igualdade de oportunidades e a equidade de tratamento a todas as pessoas independente da idade, gênero, sexo, orientação sexual, condição física ou sensorial, raça, origem, local de moradia ou estilo de vida.

Gostaria muito de saber sua opinião sobre o assunto. Comente abaixo.

Até o próximo artigo!

Walter Alves

Consultor social sobre diversidade e inclusão de pessoas 50+ no trabalho. Educador, facilitador em workshops e consultor em programas de diversidade e inclusão. Dedica-se, desde 2012, ao tema longevidade e preconceito etário. Parceiro da Maturi, onde escreve semanalmente para o blog. Produziu e apresentou o programa de entrevistas Trabalho no Futuro.
Walter Alves