Deixe de lado a “propositite” e crie seu futuro

A futurista Lala Deheinzelin ensina o caminho das pedras: estar atualizado no uso de tecnologia, da criatividade, da colaboração, do compartilhamento.

Lala Deheinzelin não tem bola de cristal. Como uma das três maiores futuristas das Américas Latina e Central, não prevê o futuro. Vai além: cria futuros. Cofundadora do Núcleo de Estudos do Futuro da PUC-SP, parte do United Nations Millennium Project, é autora do livro Desejável Mundo Novo e coordenadora do movimento Crie Futuros e faz um convite para que todos sejamos coautores do mundo.

Com 62 anos, recém-completados, acredita que os mais velhos têm o conhecimento, a resiliência e a maturidade para atravessar o momento que estamos vivendo, de transição de uma economia do consumo para uma centrada no cuidar.

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Lala Deheinzelin foi atriz e participou entre outras obras no cinema e na televisão, da novela Vale Tudo, onde fazia o papel de Cecília.

Desde 2005, quando se tornou assessora especial em Economia Criativa, tem estudado e desenvolvidos técnicas que ajudam a compreender o presente e todas as oportunidades que ele traz para termos um futuro melhor. Criou a metodologia denominada Fluxonomia, um sistema de gestão de empreendimentos e iniciativas que dialoga com as rápidas mudanças do século XXI, por meio das economias criativa, colaborativa, compartilhada e multimoedas.

Com múltiplos talentos, é atriz, coreógrafa, produtora cultural, foi indicada pela P2P Foundation, como uma das 100 Mulheres que estão co-criando a sociedade colaborativa, na categoria de “Pioneiras e Defensoras nos Negócios e Economia Ética”.

Em entrevista para o Blog da Maturi, falou sobre como podemos criar futuro que consiste em casar o que fazer que satisfaça o seu propósito e a necessidade do outro; nos manter atualizado e de entender como buscar valor no lugar de receita. Lembra ainda que não podemos sofrer de “propositite” e nem ficar exibindo por aí um propósito como se fosse um bichinho de estimação sem por a mão na massa e estabelecer processos.

Blog Maturi: Muita gente na faixa dos 50, acha que não tem tempo mais de criar seu futuro. Qual a sua opinião sobre esse assunto?

Lala Deheinzelin: Sempre há tempo para criar futuro e mais ainda, quando ficamos mais velhos. Primeiro, porque a gente tem sabedoria. Segundo, porque há pouco tempo que tem que ser muito bem aproveitado. E o melhor jeito de aproveitá-lo, é fazer aquilo que a gente gosta, sabe e que o mundo precisa.

Blog Maturi: Tendo a criação do futuro em nossas mãos, podemos fazer escolhas erradas e se a fizermos, tem tempo de consertar?

Lala Deheinzelin: Criar futuros é algo que se aprende, a medida que a gente vai se percebendo como coautor do mundo e não como vítima. A melhor maneira de aprender, sempre, é tentando. Então é muito interessante quando começamos a pensar futuros, parece muito difícil. Com o tempo, vai percebendo que passa a se tornar um olhar. Você olha ao seu rodar, pensando: puxa! Como eu poderia reinventar isso? E ao fazer isso, vai achando maneiras de poder se aprimorar e, aprimorar o entorno. Se somos criador, podemos consertar o que nós mesmo criamos.

Blog Maturi:  A pandemia acelerou as novas formas de economia e mesmo tendo a impressão que paramos por seis meses, podemos ter dado um salto quântico a um novo modelo de economia?

Lala Deheinzelin: A pandemia foi a causa, mas, mais do que tudo, um sintoma da necessidade de novas economias, modelos organizacionais, e sobretudo, uma forma de existir, a partir da colaboração e de repensar o que tem valor para cada um. Esses meses parados foram anos avançando na direção de mudanças que precisariam ter começado a avançar um pouco antes. Porém, sempre é tempo. E sim, faremos um salto quântico em relação às novas economias do compartilhar da infraestrutura existente, da colaboração, dividindo o que a gente tem de competências. Pois, se escasseia a moeda, o nosso conhecimento, não. O que existe de infraestrutura ociosa, de espaços, de equipamentos, de materias, todas essas coisas que são bens e serviços de fato, isso não deixou desistir ou não tem uma desvalorização como tem moeda. Então, se a gente encontrar maneiras de circular isso: bingo! Vamos achando os caminhos necessários. E é isso o que vai acontecer. Seremos cada vez criaturas multimoedas e de multivalores que embasam essas moedas.

Blog Maturi:  Os maturis são de uma geração criada em uma sociedade que explorou os recursos naturais e o capital humano. Agora, estamos entrando na era da inteligência artificial e dos negócios exponenciais. Como fazer essa transição?

 

Lala Deheinzelin: Uma das chaves desta transição é sair de uma economia do consumo, que realmente acabou com os recursos naturais, para uma do cuidar. Pois, cuidar pode ser infinito, há muitas coisas para serem cuidadas. Já o consumo é finito, podemos consumir pouco. Por exemplo, uso apenas uma blusa de cada vez. Até posso comprar 1000 blusas, mas, não adianta muito, porque só consigo vestir uma. Na outra ponta, posso cuidar de 100 coisas ao mesmo tempo. Essa característica do cuidar vai permitir que a gente continue criando novas formas de trabalhar e de se remunerar mesmo com a chegada da inteligência artificial. O problema é que estamos abrindo mão do conhecimento de si mesmo, dos sistemas, de como funcionam as coisas. Estamos ficando com inteligência artificial e estupidez natural, porque estamos parando de aprender. Isso é terrível! Não vai ter cuidado que dê conta. Outra coisa que é muito interessante desta transição é que ela terá que ser cada vez mais intergeracional.

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Blog Maturi:  Os mais velhos já sofrem o preconceito do atraso e além disso, não são nativos da internet e, muitas vezes, desconhece as novas economias baseadas na criatividade, colaboração e compartilhamento. Como sanar esse gap? Seu curso de fluxonomia poderia ajudar neste sentido?

Lala Deheinzelin: Devemos esquecer o preconceito, pois os mais velhos têm muito do que é necessário para atravessarmos esse momento. Tem resiliência, capacidade de superar dificuldades, experiência em investimento continuado em alguma coisa que desejam materializar. O que nas gerações mais jovens é muito difícil, pois vivem de projetos que começam, acabam, começam, acabam… e nem tudo no mundo dá para fazer assim. Tem coisas precisam de tempo, de conhecimento de maturação. O que precisa é estar atualizado no uso de tecnologia, da criatividade, da colaboração, do compartilhamento. Aprender a lidar como as novas economias e ir para isso, é imprescindível a formação continuada. Esta é uma das razões da gente ter criado a Fluxonomia 4 D cujas fases funcionam como uma grande espiral. Começa por compreender o presente e todas as oportunidades que traz. A partir deste entendimento, a segunda etapa que é criar futuro que consiste em casar o que fazer que satisfaça o seu propósito e a necessidade do outro. Aí, entramos na casa da economia criativa: como é gerar valor fazendo algo único. Seguimos para a economia compartilhada: como é que vou reduzir custos e impacto ambiental distribuindo os excedentes disponíveis de espaço, de equipamento. Com isso, chegamos ao nosso grande desafio atual que é o social, a economia colaborativa, a forma de se organizar, em uma estrutura diferente da que conhecemos. Na economia colaborativa, é fundamental, buscar com que vai vamos nos associar para fazermos junto. Fazer junto é a chave desse movimento para chegarmos em um valor. Tendo isso, entramos em uma nova economia, com multimoedas – que estamos vendo e veremos cada vez mais – aonde o cuidado ambiental, a colaboração, os excedentes, enfim, uma enorme quantidade de coisas pode gerar moedas que são formas, de verdade, de atribuir valor a algo que possa ser trocado. Pode parecer complexo, mais importante do que nunca a gente se atualizar nisso e foi para poder manejar isso que criamos a fluxonomia: essa combinação de futuro e novas economias.

Blog Maturi:  Muito se fala em propósito, na capacidade de servir o outro. Ter um é essencial para se dar bem nas novas economias?

Lala Deheinzelin: Na fluxonomia, a gente trabalha sempre em quatro dimensões simultâneas. É uma dimensão a mais do que da sustentabilidade que é a cultural. Cultura como maneira de se conhecer, de perceber o outro, tudo que que a gente tem dentro, conhecimento, criatividade, valores humanos. A dimensão cultural é tremendamente importante porque é ela que vai dizer o que é que tem de único, quais são seus atributos, qual é o seu “para que”, os valores, causas, competências, diversidades, que você representa. E isso que pode dar valor ao seu negócio. Por exemplo, se eu vendo ovo, tem um monte de gente que vende ovo, não tem muito valor. Mas, se eu vendo da galinha feliz, aí sim eu tenho capacidade de me dar bem porque eu tenho uma coisa diferente, uma coisa única. Então, é muito importante a gente conhecer o nosso propósito. Só que este propósito precisa ser real. Eu tenho uma amiga que diz que o propósito virou que nem bichinho de estimação. Vem, propósito, senta aqui do lado! Aquela coisa que você exibe como um bichinho. Não! O propósito tem que ser real. Tem que ser algo que, efetivamente, você consegue entregar.

Blog Maturi: Ao fazer transição de carreira é importante levar em conta esse novo cenário para qual caminha o mundo? Como se preparar para isso?

Lala Deheinzelin: Para fazer uma transição de carreira, primeiro é preciso tomar muito cuidado com a “propositite”. Porque, de repente, todo mundo está acometido pela “propositite”. E o resultado acaba sendo largar tudo, sem ter lastro suficiente. Claro que é bom, ter um propósito. Mais ao mesmo tempo, tem de compreender o presente e saber qual o lastro que você tem de competências, de infraestrutura disponível, de relações, de tecnologias, para poder desenhar essa transição. Isso é a primeira aplicação da fluxonomia. Na verdade, a segunda. A primeira, é compreender as coisas e poder criar para onde você quer ir. A seguinte é o design de uma nova carreira, de um novo produto, de um novo serviço, na qual, analisa etapa por etapa, o que tem, o que o mundo precisa e quanto está preparado para isso. De novo, passando por todas as fases que falamos: de compreender o presente, de criar futuro, das 4 dimensões e as 4 economias. Assim você vai tendo clareza que é bom fazer essa transição, mas é melhor quando estamos preparados e, sobretudo, tendo com quem fazer junto. Mudar sozinho é muito mais difícil do que mudar em grupo de pessoas afins.

Blog Maturi:  Como a tecnologia nos ajudar a criar futuros?

Lala Deheinzelin: A tecnologia é fundamental para criar futuros. Ainda mais nesta era exponencial – palavra nova que nem conhecíamos e hoje está o tempo inteiro no repertório. Falamos que o presente é exponencial. Porque a internet, esta rede hiper e interconectada, cria uma dinâmica diferente da nossa capacidade de resposta que é linear. O tempo, o corpo e o planeta são lineares enquanto o mundo está exponencial. Como dá para fechar essa conta? Fazendo junto e convergindo. Ambas só acontecem com a ajuda da tecnologia. A tecnologia permite convergir tempo, recursos, operar fora do tempo e do espaço não dependendo da distância e nem de onde você esteja. Na ponta da colaboração é ainda mais vital, pois é uma estrutura sociocultural muito complexa. É fácil ter o desejo de colaborar, mas saber colaborar é muito complicado e precisa ferramentas. Mais uma vez a razão de ser da fluxonomia, que é combinar essa questão do futuro e das novas economias para nos preparar para esta colaboração que por sua vez, nos ajuda a dar conta do exponencial. Assim, estabelecemos um círculo virtuoso.

Blog Maturi:  Você sempre fala que mais do que em produtos, temos de pensar em processos. Como as grandes empresas encaram essa tarefa?

Lala Deheinzelin: Um dos desafios desta época é justamente passar do foco em produtos para poder pensar em processo. O processo é o como. Muitas vezes, a gente sabe o que precisa ser feito, mas saber o que precisa ser feito é o ponto de partida e não é o ponto de chegada. O ponto de chegada é saber como pode ser feito. Então, mais e mais, as empresas estão percebendo isso, porém, ainda, tem muito chão para andar. Por que qual é o problema? Um produto, eu encomendo, não preciso me envolver, digo dia tal, quero o produto pronto. Mas, um processo não dá para encomendar a dizer tal dia está pronto e nem dá para ficar alheio. Processos, a gente se envolve. Eles são a única maneira de conseguir aquilo que é a chave deste momento que é fazer junto e também de criar novas estruturas organizacionais. Então, esse é o foco. As empresas que estão conseguindo perceber isso: que o mais importante que o que eu faço, é como, estão se dando muito bem. Também, pelo seguinte: o que faço, me gera receita e receita é linear. Quanto eu consigo gerar de receita? Ela vai depender da minha capacidade produtiva, de comercialização, etc. Porém, o como faço é o que vai me dar valor que pode ser exponencial. As empresas que estão percebendo a importância do como, do processo, são aquelas que estão na frente e são aquelas que tem maior potencial de longevidade. Porque quem não mudar a forma de fazer, está encrencado.

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Regiane Bochichi

Profissional multidisciplinar, especialista em transmídia, com sólida experiência em ações de marketing e conteúdo jornalístico, adquirida em mais de 30 anos de atuação em empresas nacionais e multinacionais do segmento de comunicação tanto em veículos como em agências.
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