A aposentadoria de atletas e executivos – Um paralelo do pódio olímpico à carreira corporativa

Na foto Alberto Marson, o primeiro medalhista olímpico do Brasil

Na abertura dos jogos olímpicos Rio 2016 além de toda a beleza do espetáculo apresentado, me emocionei com a entrada das delegações ao ver olhos marejados de lágrimas de vários atletas. Entrar no Maracanã lotado é a coroação de um esforço de horas, dias, anos de muito treino e dedicação.

Para a maioria daquelas pessoas, o esporte entra em suas vidas muito cedo. Por meio de uma mistura de talento e dedicação exaustiva, ele vai tomando espaço em suas vidas, e em sua maioria, na entrada da adolescência transforma-se em trabalho, com contratos assinados por seus responsáveis com patrocinadores e clubes.

Em várias modalidades assistimos medalhistas com menos de 18 anos.

Ao fazer a escolha por este caminho que, definitivamente não possui atalhos, decisões muito sérias são feitas e em alguns casos, a desistência da educação formal, que poderia proporcionar a estes jovens outros caminhos no futuro, é uma delas.

Afinal, são em média 10 horas de treino diários aos 12, 13, 15 anos o equivalente a uma jornada de trabalho.

Quanto tempo pode durar a carreira destes atletas? O esforço físico exigido é tão grande, que muito precocemente alguns são “aposentados” por lesões sem antes mesmo chegarem ao seu auge.

No final de semana da abertura dos jogos, o Jornal Valor Econômico em sua revista EU & FIM DE SEMANA, publicou histórias de “velhos” atletas brasileiros que já trouxeram medalhas olímpicas. Entre eles estão Alberto Marson (91 anos), único remanescente da equipe brasileira de basquete que conquistou a medalha de bronze em 1948; Manoel dos Santos Jr (77 anos), nadador que obteve bronze em 1960 na final dos 100m livre; Servílio de Oliveira (68 anos) medalha de bronze no boxe, categoria peso mosca em 1968.

Nos três casos, “eram outros tempos”, a mídia não dava tanto valor e espaço aos jogos, e as conquistas gloriosas repercutiam muito menos. Era uma grande realização profissional, pessoal e familiar, mas sem retornos financeiros para a carreira. No caso de Marson, seus filhos só descobriram que o pai era medalhista olímpico já adolescentes. Ele complementa dizendo que muito mais importante que a medalha, foi sua carreira como treinador que o ajudou a revelar grandes talentos para as quadras.

Gustavo Kuerten
Gustavo Kuerten

Outros exemplos, como os de Gustavo Kuerten (39 anos) e Pelé (75 anos) – para ficar apenas em alguns – eles entenderam, muito cedo, que o auge de suas carreiras não era garantia suficiente para manter sua auto-estima e o reconhecimento público dos personagens que se tornaram.

Bauman em seu livro Identidade afirma que: “Tornamo-nos conscientes de que o “pertencimento” e a “identidade” não tem a solidez de uma rocha, não são garantidas para toda vida, são bastante negociáveis e revogáveis, e de que as decisões que o próprio individuo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age – e a determinação de se manter firme a tudo isso – são fatores cruciais tanto para o “pertencimento” quanto para a “identidade”.

Talvez com esta clareza do real significado de suas conquistas, tiveram a humildade, e inteligência, de se reinventarem para as outras fases de suas vidas e não se deixaram iludir pelo “personagem”, que cada um se tornou.

Traçando um paralelo da realidade do esporte para a do trabalho, principalmente àquela ligada ao mundo corporativo, o que vejo quando desenvolvo o tema do Pós-carreira – transição para eventual aposentadoria – é que, quanto mais alto o nível hierárquico ocupado pelo indivíduo, e sua respectiva representatividade social, maior o conjunto de dificuldades destes em lidar com esta mudança de “status” e poder.

As grandes corporações transformam seus altos executivos em “personagens importantes” propiciando-lhes, de forma transitória, uma série de símbolos que alimentam vaidades e admiração. E com isso cria-se uma perigosa mistura entre o que é sua competência e aquilo que a organização lhe “empresta” de forma temporária. Ou seja, um sobrenome corporativo que faz surgir um personagem, muitas vezes desvinculado da figura individual.

Eis alguns exemplos: Destaque nas várias mídias, colunas sociais, premiações e literatura de auto-ajuda; Aumento nos índices de longevidade; Maior qualidade de vida proveniente de cuidados físicos e da saúde; Reconhecimento público, admiração e fácil acesso às diferentes estruturas de poder; Possibilidade de isolamento do mundo real através de instalações físicas, barreiras hierárquicas e disponibilidade no uso de recursos para a segurança pessoal; entre outros.

É importante refletirmos sobre quem somos e nossos projetos durante todo o percurso de nossas vidas, afinal como dizia o moralista francês Duque de La Rochefoucauld, em uma de suas máximas “Existem poucas coisas que nós desejaríamos de forma intensa se nós soubéssemos realmente o que queremos.”

Denise Mazzaferro

Sócia em Angatu IDH
Mestre em Gerontologia pela PUC- SP, Pós graduada em Marketing pela ESPM, graduada em Administração de empresas pela FEA – USP.
Membro do Conselho gestor do OLHE (Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento).
Colaboradora do Portal do Envelhecimento.
E-mail: dmazzaferro@angatuidh.com.br
Denise Mazzaferro

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