Cinco dúvidas frequentes sobre os maturis e o mercado de trabalho

Combate ao etarismo, discriminação nos processos seletivos, medo da tecnologia, home office e equipes intergeracionais são alguns dos mitos em torno do mercado de trabalho para os 50+.

Os números não deixam mais dúvidas, os maturis estão ocupando espaço no mercado de trabalho. Mesmo com a pandemia, a participação de pessoas acima dos 50 ano aumentou quase 40% desde 2012, quando era de 6,2%, com um aumento relevante mesmo de 2019 para 2020. Conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do segundo trimestre do ano passado, os brasileiros com mais de 60 anos representavam 8,6% da população ocupada.

São passos de formiguinha ainda, mas se levarmos em conta que a expectativa de vida do brasileiro ao nascer deve cair em até dois anos por conta da Covid-19. Será a primeira vez que isso vai acontecer desde 1940, baseado em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“O Brasil é um dos países que envelhecem cada vez mais e as pessoas vivendo mais vão precisar trabalhar por mais tempo, precisam se manter. E também precisam de uma ocupação”, afirma Mórris Litvak, CEO e fundador da Maturi. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a quantidade de pessoas com idade acima de 60 anos chegue a 2 bilhões em 2050, representando um quinto da população mundial. No Brasil, a previsão é de que essa faixa etária some 31 milhões de pessoas no mesmo ano.

Mesmo sendo numericamente muitos, o preconceito etário está aí para ser combatido. O Relatório Global de Ageísmo, lançado em março pela OMS, traz uma pesquisa feita com 83 034 pessoas em 57 países na qual revela que uma em cada duas pessoas tinha atitudes preconceituosas e estereotipadas de nível moderado e ou alto relacionadas à idade.

“Nos tempos atuais, por exemplo, o que é inaceitável com relação a preconceito, as novas gerações entendem e praticam. Antes não era assim, como o machismo. Nas gerações anteriores, muita coisa que a gente sabe que é machista e evita, antes era tratado como normal. Temos de sermos otimista”, enfatiza Litvak.

Então, não adianta tapar o sol com a peneira. O ideal é encararmos essa questão de frente seja como sociedade seja no âmbito corporativo. Para facilitar, listamos aqui cinco principais perguntas sobre o tema e as respostas elaboradas com ajuda do fundador da Maturi que se dedica a causa da longevidade e entrou de cabeça nesse universo desde 2014.

mercado de trabalho

1.As empresas realmente estão interessadas em combater o etarismo?

Há um movimento recente das empresas, principalmente as grandes, que estão começando a olhar para a questão da diversidade como um todo, e da etária em particular. Muitas começam a fazer ações efetivas, mas de forma geral, ainda não é a prioridade.

Para se ter uma ideia no ranking das Melhores Empresas GPTW 50+ 2020, apenas 2% dos novos contratados no último ano tinha 55 anos ou mais. Por outro lado, 100% das empresas premiadas possuem um responsável em combater a discriminação e promover a diversidade e entre 40% das premiadas, há uma política oficial de não discriminação relacionada à idade para novas contratações

O preconceito de idade está atingindo os bolsos e o fator dinheiro acaba impulsionando programas mais rápidos e efetivos. Nos Estados Unidos da América (EUA), um estudo de 2020 mostrou que o preconceito etário na forma de estereótipos negativos de idade, elevou em 8 vezes o custo de tratamento de saúde,  chegando US$ 63 bilhões por ano. Isso equivale a US$ 1  em cada US$ 7 gastos com americanos de mais 60 anos durante um ano.

2.Os maturis são mesmo discriminados em processos seletivos?

Ainda há sim preconceito etário no mercado de trabalho. Infelizmente é algo cultural, mas que aos poucos começa a mudar, já que nossa população está envelhecendo rapidamente. Por consequência, a força de trabalho e o consumidor serão cada vez mais velhos. Se a empresa não quer pessoas maduras, não é a empresa certa para você nem trabalhar nem comprar seus produtos e serviços.

Hoje em dia, os chamados soft skills determinam a eficiência e a produtividade no trabalho. De acordo com o relatório “Visão Geral do Trabalho na América Latina e no Caribe de 2019” da Organização Internacional do Trabalho (OIT), as habilidades mais procuradas são as socioemocionais, como comunicação e trabalho em equipe; as cognitivas não rotineiras, como criatividade, pensamento crítico e a interpretação de problemas complexos; e as digitais, como programação, design de informações e gerenciamento de banco de dados. Todas elas podem ser encontrados em bons profissionais, independentemente da idade. Ponto para os maturis.

3.Os profissionais 50+ estão ultrapassados por não se adaptarem às novas tecnologias?

Além da atualização técnica, que passa por tecnologia essencialmente, e as demais habilidades que a sua profissão demanda, a atualização comportamental, como citado acima, é fundamental. Ou seja, para lidar com diferentes gerações, é preciso estar aberto a aprender com os mais jovens e, inclusive, ser gerido por eles. Portanto: vale uma boa dose de humildade. Afinal, por mais experiência que se tenha e tudo o que se pode para ensinar, sempre há bastante para aprender.

Não é nenhuma novidade que o mercado de trabalho está mudando e quem não se adaptar ficará para trás. Logo, é preciso começar. Isso passa por autoconhecimento, entendendo o que faz sentido para cada um no seu momento de vida, atualização técnica e comportamental contínua (o tal do lifelong learning), planejamento e networking ativo.

Atualmente, o ambiente nas organizações estão mais diverso e colaborativo, além de horizontal, então, é importante entender essa nova dinâmica e saber atuar desta forma. É necessário se valorizar, trabalhar a autoestima, mas sempre aberto para novos aprendizados e aceitar o diferente.

4.O home office facilita a contratação de profissionais maturis?

O mercado está reagindo bem ao home office e isso é positivo para os 50+,  visto que nesta dinâmica os gestores estão passando a se preocupar mais na entrega e qualidade do trabalho e dos combinados do que em quem está realizando. Era uma tendência que estava começando a crescer e virou regra com a pandemia. O trabalho em home-office facilita a diversidade e traz uma responsabilidade de autogestão e comprometimento grandes dos colaboradores, o que costuma ser característica das pessoas mais maduras.

Um levantamento feito pela empresa de consultoria BTA mostrou que, por conta da pandemia, o modelo se tornou o padrão para ao menos 43% das empresas brasileiras. Mesmo antes da pandemia do coronavírus, cerca de 3,8 milhões de brasileiros trabalhavam remotamente – e, com tudo o que estamos vivendo, há motivos para acreditar que esse número só deve aumentar daqui para frente.

Assim sendo, é uma ótima oportunidade para os 50+ que estão atualizados, gostam e sabem trabalhar remotamente. Muitas empresas continuam demitindo pessoas mais velhas em posições que tem de ser presenciais por serem grupo de risco, mas essa desculpa não existe no trabalho em casa.

Hoje, não há mais limite geográfico para se trabalhar e com a revolução que o mercado de trabalho está passando, tanto comportamental quanto tecnológica, profissões deixam de existir e novas profissões são criadas a todo o tempo.

5.Equipes intergeracionais melhoram o resultado e ambiente nas empresas?

Sim. Há pesquisas e cases comprovando isso. O estudo “Rotas Diversidade e Longevidade 2035”, liderado pelo Centro de Inovação Sesi (CIS) em Longevidade e Produtividade, com cooperação técnica do Observatório Sistema Fiep, aponta que os ambientes laborais com pessoas de várias faixas etárias, acima dos 60 anos, são mais criativos e inovadores. E isso reflete não apenas na criação de um espaço harmônico entre os colaboradores, mas também no aspecto financeiro, com mais produtividade.

Equipe diversas de forma geral geram mais inovação às empresas no médio e longo prazo, quando há o devido cuidado na integração das pessoas dessas equipes. E as equipes intergeracionais são parte fundamental desse processo. Ao estarem conscientizadas da importância de aprender e ensinar uns com os outros, derrubando mitos e barreiras, a troca se torna valiosíssima, pois são visões de mundo e experiências extramente complementares, além de um conhecimento maior sobre o público consumidor que também é diverso na idade.

Para caminharmos para o um ambiente mais justo e igualitário, o “Rotas 2035” sugere o investimento em educação, a implementação do uso do conceito de ambiente laboral de todas as idades, a construção de conteúdos informativos sobre sistemas previdenciários e planos de aposentadoria e mapeamento de modelos de negócio e empreendimentos focados no envelhecimento.

Regiane Bochichi

Profissional multidisciplinar, especialista em transmídia, com sólida experiência em ações de marketing e conteúdo jornalístico, adquirida em mais de 30 anos de atuação em empresas nacionais e multinacionais do segmento de comunicação tanto em veículos como em agências.
Regiane Bochichi