Envelhecimento para iniciantes

Todo ser vivo envelhece de forma individual e singular. Apesar da obviedade, é bom lembrar aos iniciantes que nossa condição orgânica nos empurra ao envelhecimento.

Falar de envelhecimento para iniciantes é, também, dizer que somos vulneráveis e frágeis frente a morte – um dia ela chegará. Mas isto não deve ser impeditivo para que nos conheçamos e, assim, podermos dosar nossa capacidade de realização.

Por uma série de fatores – gênero, sexo, orientação sexual, condição física ou sensorial, raça, origem, local de moradia, estilo de vida – o envelhecimento não acontece da mesma forma para todas as pessoas.

“Ver o tempo passar e observar as mudanças em nossos corpos, mentes e sentimentos é captado diferente, individual e unicamente”.

Mesmo que as sensações sejam individuais, alguns arquétipos são universais. Por exemplo, geralmente as mulheres têm expectativa de vida superior à dos homens em qualquer localidade de nosso planeta. Desconheço estudos que levem em consideração a transgeneridade, mas acredito que a condição biológica deva ser determinante e a regra das mulheres viverem mais que os homens deva perdurar.

Sabemos, também, que a longevidade está ligada, fortemente, à condição econômica e social sendo maior para as pessoas que usufruem de boas condições sanitárias da moradia e assistência médica e psicossocial quando necessária e demandada. É possível afirmar que melhores condições significa maior longevidade. Envelhecer em alguns ambientes ou sob algumas condições significa morrer mais cedo.

E isto é comprovado nesta situação de exceção e pandêmica que vivemos.  Em maio, o Imperial College London publicou num relatório afirmando que “o impacto da pandemia COVID-19 em locais de baixa renda provavelmente será mais grave devido às condições de saúde, com as populações mais pobres tendo acesso limitado a medidas preventivas, como lavar as mãos. Os resultados de nossas pesquisas demonstram tendências claras de que a probabilidade de morte por COVID-19 aumenta em 32% com o aumento da pobreza.”

O prognóstico do Imperial College London foi confirmado 2 meses depois na cidade de São Paulo. Segundo o Mapa da Desigualdade 2019 da Rede Nossa São Paulo, as 2 maiores expectativas de vida no município estão nos bairros nobres de Moema e Jardim Paulista com médias de 81 anos e 80 anos, respectivamente. Duas entre as 3 menores, encontram-se nos bairros periféricos do Grajaú e Cidade Tiradentes, respectivamente, com índices de 59 anos e 57 anos.

Até a primeira quinzena de junho, nos dois distritos com maior expectativa de vida, houve um número baixo de óbitos por Covid-19, 130 falecimentos, na somatória dos dois. Enquanto que nos distritos com menor expectativa média de vida, o somatório atinge 460 mortes, como pode ser visto na imagem abaixo:

envelhecimento para iniciantes

Grajaú e Cidade Tiradentes somavam 3,5 vezes mais óbitos que Moema e Jardim Paulista

Pessoas mais pobres vivem menos que as mais ricas e isto observável em qualquer longitude ou latitude da Terra, seja na Europa, América do Norte e Central. Ampliando as informações sobre os diferentes envelhecimentos para iniciantes: esta dinâmica também ocorre quando se compara pessoas negras com as brancas; pessoas com deficiência com as sem deficiência; e aquelas e aqueles que resolveram seguir uma orientação sexual diferente da heterossexualidade como aquelas e aqueles cisgêneros.

As discriminações estruturais empurram pessoas dos vários grupos sub-representados social, econômica e politicamente a uma vida menos longeva pelas dificuldades em alimentarem-se bem, morarem adequadamente, trabalharem, acessarem espaços de cultura e lazer e terem igualdade de oportunidades nos estudos e no trabalho.

Além da pandemia reafirmar sobre o que já sabíamos sobre as questões da vulnerabilidade social e econômica, fomos confrontados com a dura realidade da diminuição da expectativa de vida, e por consequência da longevidade, provocada pela morte prematura de homens infectados pelo coronavírus.

O Ipea aponta que as mortes por Covid-19 reduziram em um ano a expectativa de vida do brasileiro. O jornal O Globo traz que “em 2018, um homem brasileiro poderia esperar viver 72,5 anos. Estima-se que, com o total de óbitos registrados até o último dia 8 de setembro, essa expectativa tenha caído para 71,5”.

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Crédito da imagem: Fabiano Rocha – O Globo

Mesmo para o leitor não iniciante, o assunto tem uma complexidade inerente cabendo inúmeras opiniões. Para qualquer olhar, no entanto, os fatos são incontestáveis e isso significa afirmar que, sob o ponto de vista racional e científico, as mais variadas narrativas não conseguem sumir com as vítimas, mortes, perdas e muito menos com as dores advindas da pandemia.

O envelhecimento para iniciantes – aquelas e aqueles que tomaram contato pela primeira vez com as questões do envelhecimento – é uma tentativa de naturalizar o envelhecimento tornando-o dinâmico e como fonte de imensa riqueza. Ao mesmo tempo, é reconhecer que há envelhecimentos, no plural, e isto faz toda a diferença na formação de nossas crenças, na maneira como olhamos o mundo, no modo como construímos nosso conhecimento e, consequentemente, como atuamos na criação do futuro que desejamos.

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Até o próximo Artigo!

Walter Alves

Consultor social sobre diversidade e inclusão de pessoas 50+ no trabalho. Educador, facilitador em workshops e consultor em programas de diversidade e inclusão. Dedica-se, desde 2012, ao tema longevidade e preconceito etário. Parceiro da Maturi, onde escreve semanalmente para o blog. Produziu e apresentou o programa de entrevistas Trabalho no Futuro.
Walter Alves